25 de Abril SEMPRE


..."Nessa noite resolveram invadir as sedes do MRPP em todo o país, pelo que fomos presos e levados para os camiões que eles tinham à porta do edifício. Éramos cerca de 12 pessoas e quando chegámos à rua vimos que havia pessoas a ver, por isso como era natural nos militantes do MRPP, desatámos a gritar palavras de ordem como protesto contra a detenção. Nessa noite fomos levados para Caxias."

..."Protestávamos constantemente contra isso porque entendíamos que se tratava de uma injustiça. E o curioso é que os guardas de Caxias, que eram militares dos Fuzileiros, tinham muita simpatia por nós e avisavam-nos sobre o que o CPCON ia fazer a seguir e o que pretendia de nós. Assim que lá chegámos, resolvemos barricar-nos com as camas encostadas à parede e à porta de cela. Lutámos à nossa maneira e a luta dentro da prisão era tanto maior quanto maiores eram os protestos dos nossos camaradas na rua contra a repressão exercida sobre o MRPP. Para acabar com os nossos protestos, resolveram pôr-nos um dia e uma noite debaixo de mangueiradas de água e de alguns tiros disparados para o ar.
Ficámos em Caxias uma série de dias e perdemos um pouco a noção do tempo que lá estivemos. Fomos vigiados por todo o lado e fotografados como presos, mas para as fotografias não nos identificarem desatámos a fazer caretas. Depois de toda esta agitação, alguns identificaram-se e foram para casa e outros, como eu, um belo dia forma metidos em carros celulares rodeados de chaimites. Saímos de Caxias sem saber com que destino, até que a dada altura eu espreitei por frecha e reconheci Alcácer do Sal, onde nasci. Então percebi logo que estávamos a ser levados para Pinheiro da Cruz.
Lá, as coisas foram diferentes, pois cada um de nós ficou numa cela. Como ficámos isolados, resolvemos comunicar pelas janelas. Numa situação destas consegue-se inventar processos de comunicação, pelo que utilizámos vários. Lembro-me de um soldado que entregava um maço de cigarros a um e, com um cordel, enviar um cigarro ou os fósforos a outro camarada. E até reuniões fizemos pela janela, falávamos aos gritos de umas celas para as outras, sobre a situação politica e o nosso próprio caso.
E, tal como em Caxias, continuámos com protestos diários contra a nossa prisão. Estávamos junto de presos de delito comum, que não éramos. Ficámos muitos dias em Pinheiro da Cruz, onde já não sofremos a pressão que tivemos em Caxias. Dois ou três dias depois de lá termos chegado, precisávamos de tomar banho e então levaram-nos para os duches e deram-nos fardas de presos. Claro que todos nós recusámos porque não éramos presos de delito comum. Resultado, enquanto lá estivemos andámos sempre com a mesma roupa que íamos lavando como podíamos."

Excertos de uma entrevista feita ao meu pai, in Memórias da Revolução no distrito de Setúbal - 25 anos depois - Volume II
Que posso mais dizer ORGULHO! VIVA a LIBERDADE! VIVA o 25 de ABRIL!!!!

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